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Com dois anos recém completos, Alice frequentou uma escolinha infantil perto de casa. Nunca morri de amores pela escola, que tinha um espaço bem chinfrim e um estilo meio caretão. Mas ficava a dois quarteirões da minha casa, e isso falou mais alto. Eu achava que a escola não tinha muito como errar com crianças de dois anos, desde que elas brincasses bastante (e brincavam) e fossem bem cuidadas (e eram). Enfim, achei que dava pro gasto...
...Um dia ela juntou as mãozinhas antes do jantar, agradeceu ao Papai do Céu pela refeição e disse amém. Soou na minha cabeça um alarme bem alto e com luzes piscantes. Mané amém, gente! Minha filha não foi para a escola para aprender a rezar, correto? Isso faz parte da esfera privada, das crenças da família. Se eu quiser, rezo com ela. Uma oração católica, ou muçulmana, ou budista, do candomblé, wicca, o que quer que seja. Ou nenhuma. Isso não pode, de forma alguma, partir da escola.
Acontece que existe no Brasil essa mania de se achar que todo mundo é religioso - cristão, para ser exata. É como se nós fossemos cristãos de fábrica. Falar amém, vai com Deus ou Deus te abençoe é normal como dar bom dia (na verdade é MAIS normal do que dar bom dia). E isso é legal se demonstra cuidado, carinho, good vibes ou o que quer que seja. Mesmo sem acreditar em Deus, eu não vou me ofender se alguém me diz vai com Deus, claro que não. Vou é agradecer pela intenção (até porque uma bençãozinha de vez em quando nunca é demais). Cada um com a sua crença, descrença ou meia-crença, certo? Mas se a professora da minha filha, dentro da escola, ensina os alunos a rezarem, isso me ofende sim. Pois a professora tem uma responsabilidade que alguém que me diz "vai com Deus" na rua não tem. E botar a criançada para rezar, seja para o deus que for, demonstra: ou uma absoluta falta de percepção de que as pessoas são diferentes, ouuma absoluta falta de respeito com as diferenças.
Enfim, como o Brasil é um país que se diz laico mas de laico não tem nada, a coordenadora ficou completamente surpresa quando eu fui até a escola questionar a reza. Ela disse que aquilo é só uma musiquinha, "sem caráter religioso". Oi? A criança disse amém com as mãozinhas postas - se isso não tem caráter religioso, eu não sei o que tem.
Se a professora ensinasse as crianças a invocarem orixás antes do lanche, será que a coordenadora continuaria achando que isso não tem caráter religioso? Se cantassem uma música hinduísta, ou judaica, para agradecer a refeição, elas seriam só musiquinhas? E se todas virassem em direção à Meca e tocassem as testas no chão? Posso imaginar o escândalo. Mas amém pode. Papai do Céu pode. Porque isso não é religião, imagina.
Bom, se a coordenadora acha que não tem nada de mais, então a escola não serve pra gente, porque o nosso conceito de qual é o papel de uma escola passa bem longe disso."
PatiJensen reza com a Joana todas as noite. Em casa. E não vê diferença entre a professora que reza e a que faz oferendas. Mas na escola, não!